1000 ANOS DE HISTÓRIA

 
 









As Origens

Desenvolveram-se diversas teorias sobre as origens do Angorá Turco e dos gatos de pêlo comprido, em geral. 

Hoje, muitos especialistas pensam que este tipo de gato tem origem no sul da Rússia (Chorason, Caucásia) e foi levado daí para a Pérsia, Índia e Ásia Menor (para a região hoje chamada Turquia), entre o séc. IX e o séc. XI. 
O factor pêlo comprido foi uma contribuição do Felis silvestris caucasis.
Mais tarde, misturaram-se com Felis silvestris lybica e Felis silvestris ocreata. Nunca se misturaram com Felis silvestris silvestris e, por esse motivo, conservaram a sua aparência levemente oriental. 
Nestas regiões desenvolveram-se muitos tipos de gatos de pêlo semi-longo. Em meados do século 19 ainda se falava sobre o gato da Crimeia, dos Himalaias, da Pérsia, de Tobolsk, etc., etc.
Eram todos muito parecidos e era preciso ser perito no assunto para encontrar diferenças entre eles.
 
Odysseus, Perseus e Medea 'Inchmahome, Angorás turcos castanhos listrados, com ou sem branco. Nascidos em 19 de Fevereiro de 1991. Progenitor: Zarif de Saint Glinglin, Progenitora: Izmir's Kiralice. A mãe foi criada por um criador particular em Esmirna, na Turquia.  

Por volta do século X, os Vikings, que frequentemente aterrorizavam estas regiões, provavelmente traziam gatos deste tipo nos seus navios, nas viagens de regresso. Foram esses, provavelmente, os antepassados dos Gatos dos Bosques da Noruega

O Maine Coon é o resultado de uma mistura entre Angorás importados e os grandes gatos domésticos daquela região. A história de que estes Angorás pertenceram à infeliz rainha Maria Antonieta de França, é provavelmente apenas uma bonita história e nada mais!

Há notícia de que, no séc. XIII, na cidade de Ardebil (Rússia) uma vez por ano, as pessoas se reuniam com os seus gatos de pêlo comprido mais bonitos para uma espécie de exposição de gatos. Infelizmente, até hoje não se conseguiu encontrar mais informações sobre estas feiras.

  O século 17

O aristocrata e viajante italiano Pietro della Valle realizou, entre 1614 e1626, uma longa viagem através da Turquia, Pérsia e Índia. Descreveu as suas aventuras em 54 longas cartas ao seu amigo Dr. Mario Schipano que vivia em Nápoles. Mais tarde, essas cartas foram publicadas com o título Viaggi in Turchia, Persia ed India Descritti in 54 Lettere Famigliari. A partir destas cartas sabemos que, durante a sua estadia em Isfahan, na Pérsia, em 1620, ele encontrou aquilo que chama "um espantoso tipo de gato". Deu dele uma descrição detalhada, mais ou menos o primeiro standard. A partir desta descrição sabemos que não se tratava de gatos frágeis e delgados, mas que tinham as mesmas dimensões dos gatos vulgares daquele tempo. Tinham, contudo, um aspecto elegante devido ao seu belo pêlo comprido, especialmente à volta do pescoço e na cauda, "parecida com a dos esquilos".
 
 
Pietro della Valle, il pelligrino, (1586-1652). Gravura anónima da edição Romana, de 1662, das suas Viaggi.

Della Valle escolheu 4 casais para mandar para Itália, antecipadamente, com a intenção de fazer criação com eles, depois. Esses gatos provavelmente chegaram a Nápoles no princípio de 1621. Sobre as suas actividades de criador, nada mais se sabe.
 
Nazarlik Brutus, Angorá Turco, preto e branco. Nascido a 9 de Novembro de 1996. Progenitor: Campeão EuropeuYildiz Oberon, Progenitora: Campeã Internacional Sada Elli Elviira.  

Segundo Moncrif um certo Monsieur Ménard levou, no primeiro quartel do séc. XVII, um desses gatos (ou dos seus descendentes) para França. Esse gato não era branco, mas, de acordo com o soneto que Ménard escreveu na ocasião da sua morte, seria preto e branco: 
J'aurai toujours dans mon mémoir cette peluche blanche et noir (Recordarei para sempre aquela pelagem branca e negra).
 
 
Nicolas-Claude Fabri de Peiresc, (1580-1637) já de idade avançada. Gravura do séc. XVII de Claude Mellois (Musée Arbaud, Aix-en-Provence).

Nicolas-Claude Fabri, senhor de Peiresc era contemporâneo de Della Valle. Aquele grande académico francês, entre uma grande diversidade de coisas, gostava e interessava-se muito por gatos. Para afastar os ratos, conservava os gatos no seu gabinete. 
No princípio do século XVII conseguiu que lhe enviassem os seus primeiros gatos da Turquia. Tinha tido conhecimento deles provavelmente através de Della Valle. Na sua mansão Belgentier perto de Toulouse, fez criação com eles, com um interesse quase Mendeliano nos resultados.
Presenteou o Cardeal de Richelieu com um dos seus gatinhos. Por isso, foi fácil a sua introdução na Corte Francesa. Os Angorás eram extremamente raros, nessa altura, e, consequentemente pagavam-se quantias astronómicas por eles. 
Peiresc por vezes comprava, com os seus gatinhos, informações importantes e há notícia de que chegou a trocar um deles por um vaso de bronze antigo.
 
Vista da mansão de Belgentier, a primeira morada europeia do Angorá Turco. Uma gravura do séc. XVII por Israel Sylvestre. (Musée Arbaud, Aix-en-Provence).  

O Século 18

No princípio do séc. XVIII, em 1727, François-Augustin Paradis de Moncrif publicou o seu livro Les Chats mais tarde também designado comoHistoire des Chats. Neste livro descreve, também, a beleza dos Gatos Asiáticos, tal como ele lhes chama. Dá-nos o pedigree pormenorizado da descendência de Brinbelle, uma fêmea que veio de Constantinopla para França em 1699. A propósito do cárácter dos respectivos netos, diz o seguinte: Têm um carácter muito amável, embora um tanto frio nas primeiras impressões. Não estão à vontade senão com os seus verdadeiros amigos, mas têm maneiras extremamente atraentes.
 
 
François-Augustin Paradis de Moncrif, 1687-1770. Gravura contemporânea. (Arquivos da Academia Françesa, Paris)

Também menciona o viajante italiano Pietro della Valle, mas data a chegada dos 8 gatos que este enviou para Roma 100 anos mais cedo, em 1521. Mais tarde, François-Louis LeClerck, conde de Buffon, copiará esta informação para a sua Histoire Naturelle de1756. Dificilmente alguém recordará Moncrif, mas Buffon tornou-se um homem famoso. É por este motivo que muitos datam a chegada dos gatos de pêlo comprido à Europa Ocidental no século XVI, em vez do séc. XVII, devido à cópia daquela informação incorrecta.
 
La femme à la souricière (pormenor), pintura de Martin Drölling, o Velho, cerca de 1788. Orléans, Musée des Beaux-Arts.  

Em muitas pinturas deste período podem ver-se Angorás retratados. Muitas vezes como acompanhantes num retrato (geralmente de crianças) mas também como assunto principal, como no famoso exemplo da figura. O gato em questão é branco, mas em muitas outras representações pode ser azul com branco, preto, vermelho, etc.
Os Angorás eram, obviamente, muito populares. Havia fans famosos dos gatos Angorá, tais como Louis XV, a sua mulher Maria Lesczynska e o seu sucessor, Louis XVI e Maria Antonieta. O Angorá turco, como hoje lhe chamamos, era um símbolo de status no séc. XVIII e pagavam-se fortunas por eles! 
O referido Buffon chamava a estes gatos: Felis catus angorensis. Por isso, o Angorá, juntamente com o Cartuxa eram as duas únicas raças, para além dos gatos domésticos (a quem chamavam Felis catus domesticus), que tinham um nome latino oficial!
 
 
Un chat Angola (sic) qui guette un oiseau, pintura de Jean-Jacques Bachelier, cerca de 1761 Colecção privada, Paris)

  O século 19

No séc. XIX o primeiro Angorá chegou aos Estados Unidos. Mais uma vez, estes gatos eram apenas para os muito, muito ricos! Pagavam-se preços de 3.500 dólares por eles. Tratava-se de uma fortuna, naquele tempo! Contrariamente à situação actual, pagava-se mais caro por um gato adulto que tinha já provado ser um bom exemplar, do que por um gatinho que ainda tinha que crescer até à maturidade.
 
Angorá castanho, pintura de Henriëtte Ronner-Knip, 1905 (Colecção privada, Holanda)  

Um dos gatos mais famosos dessa época foi Napoleão o Grande nascido em 1888 em França, no Castelo de Fontainebleau onde foi criado por um nobre francês. 
Ganhou, aos 9 anos de idade, na exposição de Boston de1897, a taça de prata para o melhor gato em exibição. 
Ofereceram à sua dona, Mrs. Weed, a soma de 4.000 dólares por ele, mas a oferta foi recusada. A propósito, Napoleão era alaranjado (provavelmente "vermelho") e não branco! A ideia de que os Angorás Turcos deveriam ser, ou seriam de preferência brancos, data do início do séc. XX. Os gatos brancos foram, desde sempre, considerados raros, o que, efectivamente, são, mas as outras cores também eram apreciadas no início.

Em 1887 a British Cat Fancy decidiu que, daí em diante, os gatos de pêlo (semi) longo deveriam ser chamados "Persas" ou "de pêlo comprido" e foi estabelecido um standard para essa raça. Desta forma, o Angorá foi mais ou menos abolido e, consequentemente, esquecido. O facto é que os gatos Persas de hoje têm tanto a ver com o Gato Persa dessa altura como com os Angorás antigos, de antes de 1887. Os persas actuais são uma raça completamente nova, em que muitos aspectos e características das outras raças, conhecidas até então, foram incorporados.

  O Século 20

Nos anos 30 o governo Turco compreendeu que a sua raça nacional estava quase extinta. Foi, então, montada uma operação de salvamento. Reuniram-se, no Zoo de Ancara, gatos Angorás (ou que pareciam Angorás) de todo o país. Não foi tarefa fácil. Em 1966 o número de Angorás no Zoo ainda não chegava a 30!
 
 
A Campeã Internacional Cio-Cio-San de Inchmahome, azul-creme malhada listrada com branco. Progenitor: Campeão Internacional Sindbad de Inchmahome, Progenitora: Fallah de Saint Glinglin.

Daí em diante, o interesse por esta antiga raça começou a crescer de novo e foram exportados muitos gatos para a Europa e Estados Unidos. Formaram uma base sólida do que é hoje uma raça com um aumento crescente de popularidade. 
Infelizmente, os Turcos sempre preferiram os gatos brancos e negligenciaram completamente os Angorás com outras cores. O mesmo fizeram, no princípio, grandes organizações tais como a CFA e a FIFe. Isso está a mudar e os Angorás coloridos tomaram o lugar que lhes é devido entre os mais belos animais desta terra.
 
Iphygineia de Inchmahome, Angorá Turca, azul. Nascida a 12 de Outubro de 1992. Progenitor: Zarif de Saint Glinglin, Progenitora: grande campeã Internacional Bastet de Saint Glinglin. © Oliver Gerke, Germany.  

 
Ophelia d'Inchmahome: Angorá Turca branca com olhos cor de âmbar. Nascida a 19 de Fevereiro de 1997. Progenitor: Campeão Mundial Caesar d'Inchmahome, Progenitora: Campeã Kiralice Yamur Aiki' Dan

Se tiver questões a levantar, não hesite. Tentaremos responder o melhor possível. Estamos, também muito interessados nos seus comentários e sugestões a respeito desta página. Por favor, partilhe-os connosco!

Peter R. Beck & Michael A. Knubben Winter